O cachorro agora era meu companheiro de quarto. Eu que nunca tinha dividido quarto nem nada com colega de faculdade, nem com ninguém, agora me via separando um canto da área de serviço pro saco de ração de Classudo. Já tinha tudo ordenado em minha nova rotina: sairia para dar aula pela manhã e, ao fim do mês, teria economizado uma quantia considerável de dinheiro. O motivo: comer em casa, aproveitando a hora da ração do bicho para comer a minha. Comida, não ração. Ainda não.
Com o dinheiro que me sobrasse dos almoços, estaria me livrando do bolo engordurado que era a comida do Akilo e Mais Um Pouco, nome nada criativo do restaurante que me provia o sustento de cada dia (alguém deve ter instituído que restaurantes a quilo devem, obrigatoriamente, ter nomes cretinos); mas, acima de tudo, teria mais dinheiro para comprar o material das minhas aulas de taxidermia, além de investir numa loção pós-barba menos vagabunda, e comprar umas cuecas largas, daquelas pretas com frisos brancos (eu precisava me livrar das azul-claro. Não há nada mais ridículo do que cueca azul-claro, dessas que vêm em pacotes de três: as outras duas geralmente são branca e creme. Em todas o pinto fica balangandando e, no meu caso, como não há número entre M e G que me caia como uma cueca-feita-sob-encomenda, opto sempre pelo conforto patético de um número maior. Resultado: sou eu o imbecil de fraldão geriátrico azul-claro em frente ao espelho antes dos banhos). Loção e cuecas comprados, ainda vai me sobrar dinheiro pra reformar algumas calças e camisas – porque eu vou perder 16 quilos e 350 gramas, covinhas que eu não sabia existir aparecerão pra sustentar meu sorriso encantador de uma bochecha à outra e, contrariando as leis da medicina e da física e do escambau, vou estar 10 centímetros mais alto depois que toda minha gordura socada for revestida na construção surpreendente de meu físico alongado. Sabe massinhas de modelar? Pois então.
Estou sempre comprando mais livros, na tentativa febril de engordar a estante magra, tuberculosa da poeira que eu nunca limpo. Vou me valendo das sinopses das coisas, das orelhas dos livros, dos olhos dos críticos, e, Victor Frankenstein, componho meu monstro tosco de sabedoria forçada. Nossa, minha estante precisa de um trato...
Agora tenho um cachorro e uma conhecida psicótica - e também a irmã, oh! sim, a bela irmã da conhecida psicótica -, todos alheios à minha vontade de possuir alguma coisa. Como os livros que nunca foram abertos, e que preenchem os espaços banguelas de meu móvel fora de moda, estou certo de que vou acabar me acostumando com a presença deles.
Classudo mal esperou que eu abrisse a porta e já foi metendo o focinho no estreito vão das portas semi-abertas de pega-ladrão. Correu pra debaixo da estante, que sempre parece que vai desabar, e me lançou o típico olhar de cães em mudança. Calma, Classudo, e sai debaixo dessa estante que eu não quero limpar sangue de cachorro hoje - quantos livros inúteis eu tinha ali mesmo? Eram muitos...
Ialda pediu que eu ficasse com Classudo até que as coisas se ajeitassem. Eu, que já tinha problemas suficientes dentro de casa, agora tinha mais um que se mexia, que muito provavelmente cagava e mijava pelo chão e que soltava pelos. Mas o que diabos eu poderia dizer diante daqueles dois olhos oblíquos, daqueles olhos inquisidores, ainda mais depois do beijo, ainda mais depois de...Ah! Eu tinha que arranjar uma cadela pra Classudão. Uma Cadelinha, seu safado; ou, se for o caso de você querer se apaixonar e legar sua herança genética a uma prole de Classudinhos safados, te arranjo não uma Cadela, porque não é esse o termo que você vai querer usar com a amantíssima mãe de suas bolotas de pelo, mas uma fêmea, de pedigree impronunciável Je parle Français, et toi?
Uma noite inteira em claro. Uma noite inteira em claro e as costas doloridas. Uma noite em claro, as costas doloridas - como pesam os sacos de ração! -, uma sensação de indefinição na pele. Sensação de What the hell? - nem boa, nem ruim. Apenas...reticências.
Beijar Ialda foi como mergulhar numa piscina cheia de gelo, e ainda assim sentir tesão: o meu pau lá, um dedo em riste na defesa de seus objetivos pausísticos, ignorando o ardor gélido das centenas de pedras de gelo roliças e escorregadias ao redor, todas já sem as arestas e o vapor seco comum às pedras de gelo recém-tiradas da cuba. Sua língua era dura, as mãos, frias, e o pescoço ameaçava quebrar – ploc! – ao mínimo (e ansioso) forçar de minhas mãos sequiosas dela, dela e dela.
Transamos sobre o tapete e, por volta das cinco da manhã, esguichei uma mangueira de sêmen na parede coalhada de amarelos e casquinhas de meleca ressecadas?; não chegamos a transar, mas nos pegamos como os mais ansiosos dos adolescentes, e o negócio só não foi adiante porque Ialda, no auge da minha excitação periclitante (e eu não consigo imaginar o que uma “ereção periclitante” possa vir a ser...), ajoelhou-se com as mãos na nuca – a testa quase alcançando os joelhos – e pôs-se a invocar Mingusi, o Deus Asteca ao qual tinha prometido manter-se virgem até encontrar o homem certo (que não era eu, obviamente)?; ou nós três – eu, Ialda e Classudo – rumamos ao banheiro dos fundos, espalhamos pó de café por todo o chão, e nos revezamos numa zoofilia até então ignorada por ambas as partes, mas que acabara sendo revelada (a mim) pelo meu estágio de incontrolável excitação a cada passar da cauda do bicho na minha bunda metade-de-fora?
O que aconteceu naquela sala me coloca no hall dos brilhantes escritores capazes de descrever cenas de sexo com uma sutileza somente comparável à de Martha – a primeira da minha pequena lista de mulheres (15 anos: doces, ternos, românticos e cheios de ejaculações precoces) – quando sugeriu, pela primeira vez, que não agüentava mais beijo e banco de praça (sim, foi ela, sempre foram elas, e nunca eu, gordo – nunca forte! – e cheio de atitudes e fodas bem planejadas dentro da cachola, somente dentro dela...). “Eu quero; você tá a fim também?” – com um pirulito que vira chiclé na boca, eu bem me lembro: era rosa, lhe deixava a língua tingida, e fazia com que minha imaginação libidinosa alcançasse níveis impensáveis.
Bem, era essa espécie de escritor “sutil” que eu deveria encarnar pra contar o que aconteceu naquela noite – das duas uma: ou porque a coisa tinha sido tão ínfima e insignificante que precisasse dos mais óbvios adornos gramaticais para crescer aos olhos do leitor; ou porque, de tantos detalhes sórdidos e picantes e característicos de um plot pornô – o que aceleraria, sem sombra de dúvida, o ritmo de leitura do mais analfa dos analfas –, minhas mãos e mente fervilhantes não conseguiriam se conter diante da oportunidade de encarnar a veia Sheldon e descrever, com saliva empoçada na boca e uma febre de fogueira, enlaçada lá nas minhas canelas, cada movimento e sensação e gemido que teria enchido o lugar oco de móveis, estantes e histórias velhas.
Sexo animal, zoofilia ou torradas frias – “Você quer que eu ponha orégano nelas?”, Ialda perguntou – depois de um beijo, somente um beijo, mas longo e sinuoso, o “prato quente” da entrada fria do meio da noite? Hein, Classudo, pare de me olhar assim e me pegue lá na cozinha a pá de lixo e a vassoura. Hiatos narrativos são o trunfo de qualquer história – e eu uso meu coringa aqui. Ialda não é mulher pra ser fodida em duas, três, quinhentas páginas. É a mulher que eu amo, e tem um cachorro bacana da porra! E antes que alguém fale que o “é a mulher que eu amo” estaria mais adequado a um personagem adolescente de novela mexicana, eu rebato: o cachorro de agora em diante mora em minha casa, exatas 25 horas me separam daquela noite naquele apartamento cheio de ecos e vontades (algumas consumadas...Como a boa xícara do café feito com a borra que não foi desperdiçada no chão, por exemplo...) e a vida, esta estraga-prazeres de plantão, empurra o ponteiro das horas com os dedos aracnídeos, me fazendo perder o resto da crença nas coisas boas do mundo.
Contra a vida banal, anunciada em alto e bom tom pelos tic-tacs de meu relógio de parede (brinde de um supermercado; cliente número não-sei-quantas-porras; amarelo e azul), eu grito: eu amo aquela mulher e não liguei de ir com ela, numa manhã de domingo preguiçosa, catar a irmã escondida num pardieiro aluízio-azevediano...
Classudo agora dorme no tapete. Não no da sala, mas no que fica no pé da minha cama, o de palha com apliques de lã colorida.
O cinema iraniano não tem muitas cenas de sexo. Os cineastas iranianos deveriam fazer adaptações de Sidney Sheldon, não fossem os direitos autorais dos livros tão absurdamente caros. Quer dizer, pelo menos eu acho isso. Sidney Sheldon é literatura pornô de prima, classe A desses livros de sacanagem, um tipo de Emanuelle literário. Bem por aí. Fosse Ialda mais decotes, daria um jeito de entrar em assuntos ilícitos por meios lícitos (ou nem tanto, pelo menos não de fato): Sidney Sheldon, o mestre do erotismo (putaria), sabe, Ialda? Pois as histórias vão num crescendo estético (putaria, putaria) impressionante, e culminam em cenas bem elaboradas (putaria) nas quais a conjunção carnal (ê, a putaria...) toma as rédeas da narrativa (putaria). Você deveria ler mais e...
No dia em que eu criasse coragem de falar isto para uma mulher, qualquer uma, nem que fosse uma puta, minha auto-estima e sentido de auto-suficiência no mundo alcançariam níveis absurdos, o suficiente para me transformar num...Sidney Sheldon tupiniquim? “Malânia, uma tesuda índia tabajara órfã que, por sorte (ou azar?) do destino recebeu a tão sonhada (famigerada?) educação classe-mediana carioca (ou paulista? Não, carioca mesmo), agora luta pelo direito de reaver a reserva indígena, cravejada de diamantes, que o empresário Paulo Souza (ou Oliveira? Ou Soares?) tenta roubar de sua gente. Malânia Marcondes é ambiciosa, uma mulher forte, decidida, destemida, que fará de tudo para conquistar seus objetivos. O sexo é sua moeda de troca”.
Encadernação de brochura barata, alguma vagabunda com traços indígenas na capa, sentada em cima de uma mesa de escritório com as pernas nuas cruzadas e saltadas para fora da minissaia atochada. Ao fundo, uma selva verde de folhas plásticas.
“Fogo Indígena”, best-seller do Sidney Sheldon brasileiro, Fúlvio Alessandro.
Mas o cinema iraniano é muito arrastado, ela falou. Passei a me ocupar dela depois ser sugado para meu mundo bizarro, mas acho que esqueci na cara a expressão de êxtase que vinha me acompanhando, acho, apenas mentalmente (... porque eu sou um homem e, por mais controlado e “fofo” que eu possa parecer, nunca me responsabilizei pela reação natural do meu corpo diante de certas imagens. Jamais leve a mulher que você quer comer para assistir a algum filme com Nicole Kidman. Jamais. Se você, claro, for como eu. Os ingredientes, no entanto, podem ser alterados ao sabor do comensal.
A dica específica é apenas teoria aplicada: estenda-a para horizontes mais amplos. Tá valendo: “Não caia na besteira de dar uma de moderninho e ler sua Playboy na frente de sua namorada” ou “Fuja das bailarinas gostosinhas do Programa do Gugu” ou “Biquíni por biquíni, a sua mulher pode ficar sem; olhe para ela, olhe para ela, fuja da tentação e peça uma água de coco. Faz bem pra pele e pro coração”).
O resultado de meu suprimento imagético-onírico sidneysheldoniano foi um olhar afogueado direto na boca de Ialda. Senti meus olhos quentes, fumegando, como água em ebulição obscena numa chaleira pequena, instável, desequilibrada e barulhenta nas grades de um fogão impiedoso. Uma lágrima quente rolou bochecha abaixo. Desejo. O quadro era bonito, e meus olhos lúgubres certamente despertaram nela uma reação que, mesmo não sendo exatamente a que eu esperava obter, foi a grande responsável por amansar um pouco do meu maldito descontrole hormonal naquela noite pegajosa, úmida e canina (Classudo saiu do seu posto de cômodo observador-tapete para rondar as pecinhas humanas – nós, sentados como crianças, as pernas cruzadas aumentado a distância que já era, em si, lunar –; e ficava dando voltas lerdas como se inspecionasse o local, passando vez ou outra a cauda peluda no meu cóccix desnudo graças ao pouco comprimento da blusa, o baixo cós da calça e a minha péssima postura de caracol).
Ela me deu um beijo entre a bochecha e a covinha rente ao olho, próxima ao nariz, onde desembocam as lágrimas antes de ramificarem-se na vastidão de pele da face.
Uma leve sucção dos lábios na poça d’água morna acumulada carregou pra dentro dela minha dose concentrada de desejo. Alessandro, você é tão sensível, ela falou. Sim Ialda, eu sou sensível sim, embora minha demonstração de sensibilidade não esteja dada aqui, neste exato momento. Eu realmente não consigo ordenar minhas idéias sob essas condições: a irmã de Ialda é Glória, minha colega de trabalho que acabou forjando a própria morte pra conseguir o dinheiro da seguradora; Ialda consegue afastar qualquer possibilidade de estruturação ou coerência em meu texto capenga; e eu sinto que Classudo e eu ainda seremos grandes amigos.
Você está chorando por causa das coisas que eu te disse, é isso? – provocou. Eu não tinha respostas, me sentia meio crápula com meus pensamentos pequeníssimos de fodas e índias taradas, enquanto a dona de Classudo se contorcia em gentilezas domésticas para parecer segura do centro de seu furacão particular de absurdos. Sei lá, Ialda, você me faz sentir assim – respondi, o que de, alguma forma, era verdade, ainda que tristeza não fosse o assim ao que eu estava me referindo. Mas, inverdade por inverdade, melhor aquelas que não contribuem para a fome mundial ou para o desastre ecológico ou para o atropelamento de velhos lerdos tartarugando em faixas de sinais de trânsito.
A minha mentira inofensiva era o presente secreto que eu guardaria, avidamente, para entregar a Ialda em nosso primeiro ano de namoro. Sabe aquela noite no seu apartamento? Aquela em que você tinha acabado de se mudar, cheia de caixas e pó de café esparramados, e Classudo, que Deus o tenha (Classudo morreria atropelado pelos caminhões que passam nas cercanias de nossa casinha de casal recém-formado), circunrondava nossa timidez infantil? Pois, foi naquela noite que eu comecei a pagar as prestações de nossa viagem ao Nepal (o best-seller “Fogo Indígena” seria um sucesso de vendas) e que tive vontade de esmagar meus miolos com um martelo e entregá-los todos a você como prova de meu amor e vontade incontroláveis, insanos, sem rédeas.
Naquela noite, amor, não tinha sensibilidade no ar. Mas isso daqui, ó (ao leitor perspicaz, metade das palavras basta. Ao relator estúpido – eu –, sobra a prosa óbvia. E Malânia, a índia).
Alessandro, me dá um beijo – Ialda.
A frase imperativa guardava a languidez esmaecida de uma pergunta no sussurro da última palavra. Foi nos fiapos desta interrogação rala que eu me pendurei pra chegar até ela.
Ela me contou que Glória, a professora redondinha de química, ela e suas tabelas de moléculas e prótons e nêutrons moraram, durante dois anos, na casa de Adamastor: dele, de seu bigode constantemente embebido em álcool e das suas calças-cargo beges. Adamastor era professor de educação física do Estado, embora nunca tivesse freqüentado uma faculdade na vida (nem nessa, nem nas outras - e qual o pobrema?, Ialda imitava). Antes de dar aula de futebol-de-salão, coisa que todo macho sabe ou finge saber em se tratando de Brasil, classe baixa e periferia, Adamastor trabalhava numa oficina mecânica (“Rodovan Peças”) e alternava os dias de folga entre o dominó e uma praiazinha descarada.
Adamastor, Neno (Agenor) e Rodovan (o da oficina) ganhavam uma grana por fora vendendo peça de carro roubada. O destino fez com que, certo domingo, Adamastor fosse parar na mesma praia que Glória. Acompanhado dos dois comparsas, fez voar uma peça de dominó longe quando, num ímpeto da raiva ébria bastante comum em apostadores fracassados, picou um murro na mesa. O dominó foi parar no pé à milanesa de Glória, em outra mesa lááá longe, e foi quando começou a história de amor de Glória - a farofa e o sexo contado em minúcias (Não, Ialda, não me conte detalhes, eu falei, e ela sorriu promessas logo a mim, que vivo delas...). Sol, praia e óleos bronzeadores (ou de cozinha?); cascos de cerveja empilhados em meio às sandálias havaianas (e imitações baratas de havaianas) debaixo da mesa de plástico; Na hora, tocava uma música do Rei.
- Até da música você se lembra! Nossa!
- Ela é minha irmã, Alessandro, e a gente dormia no mesmo quarto. E mulher apaixonada, sabe, faz questão de contar tudo: da maneira como o carinha deu bom dia à cor da cueca da primeira transa. Bem, não só a cor da cueca, você sabe... – e riu, (falsa e providencialmente, que eu sei) tímida.
Seguia a breve odisséia através da vida suburbana de Glória. O que realmente chamou minha atenção, no entanto, veio quase no final, escapando de dentro das bolhas de bocejo que enchiam o ar com o avanço da hora (2:30 da madrugada): Glória já não queria mais saber de Adamastor no último ano, mas continuava junto. Sexo. – que era bom demais pra ser jogado fora (Poupe-me de detalhes, Ialda). Adamastor não batia em Glória, nem nada na linha de sua figura truculenta (1,95 metros de altura).
Foi Glória quem matou uma mulher, a facadas, no quarto de Adamastor.
-Como é que é?
-Foi traída, Alessandro, teve lá suas razões.
(mulheres me dão medo)
Adamastor, doce que era (sim!), assumiu a culpa e se entregou à polícia; só que, a esta altura do campeonato, era a própria Glória quem já não queria mais saber dele: o tesão, o único fio que ligava um ao outro, se rompeu com a sentença de distância eterna - 20 anos de xadrez. Adamastor ficou desolado, triste, nem dominó jogava mais – e escreveu “Você Levou Até Meu Dominó, Maldita” pra Glória, mandou pelo correio e tudo, o papel perfumado com a loção pós-barba "Freshing" que ele tanto gostava. (Ialda jura que me consegue uma cópia – e mais uma vez eu comprovo que a vida bate a ficção na imensa maioria das vezes...Eu quero compor um samba-enredo).
-Até hoje ela guarda o poema...
-Eu entendo.
-Entende?
-É. Entendo. (claro que entendo, Ialda, sua tola. O poema é para Glória como uma espécie de troféu da disputada "Maratona da Conquista Feminina"; um dado real que comprova, de alguma maneira, que até mesmo ela – feia, gorda e com uns óculos que teimavam em escorrer para a ponta do nariz minúsculo – é capaz de tirar o dominó da vida de algum homem...Você não sabe das vicissitudes da feiúra, Ialda, mas eu sei. Em se tratando de mulher então...).
Então: passada a depressão, Adamastor enfim resolve se vingar e, de dentro da cadeia, ordena que Neno e Rodovan coloquem o povo da máfia da periferia no encalço de Glória. De uns meses pra cá, a professorinha vem sendo perseguida por meio mundo de traficantes de peças de máquina da periferia Morrinho Moita Baixa, e tremeu nas bases ao receber ameaça de morte da rapaziada mais perigosa.
- Mas que grande bosta, Ialda.
- Pois é...Ela vem pra cá semana que vem. Me mandou antes pra eu ir ajeitando as coisas...
- Bosta, Ialda - ...incrível minha capacidade de ser cínico. Neste quesito, sou o primeiro colocado. Sempre. Foi assim até na morte da minha mãe (mas aí já é outra história).
- A vida é uma bosta, Alexandre.
- É por isso que eu não acredito em Deus.
- Que porra de Deus! Deus morreu...Você gosta de Nietzche?
(pausa)
Não.
Era muita informação pra ser processada: tesão (meu), timidez, Classudo, cinema iraniano, pó de café, assassinato, Glória (irmã! Como é possível? A genética é uma desgraça mesmo, valha-me!), venda de peça de carro roubado, Morrinho Moita Baixa, e Nietzche arrematando a trouxa. Foda-se o mundo, foda-se Nietzche. Me fodam! (eu estou precisando...)
- E então... O que você acha do cinema iraniano mesmo? – Uhh! Com essa eu ganhei o campeonato!.
Taxidermia XX “The way we were, the way we met, the way I lit your cigarette”
Quando tudo parecia perdido, o Deus da minha mãe morta, o agiota filha-da-puta que sempre me cobra além do que eu posso dar, inexplicavelmente deu um jeito de salvar meu couro – e eu sabia, naquele exato momento, o quanto de juros estariam reservados às prestações dos meus gramas de felicidade (um frasquinho assim ó, de nada, que tinha me custado os olhos da cara...Os dois, mais as sobrancelhas e, acho mesmo, um pedaço da testa).
Ialda: as duas mãos abertas apoiadas sobre os joelhos ossudos, um suspiro esgueirando-se através do fino risco de um sorriso entreaberto (ou um sorriso serpenteando, ofídio, no vale de um longo suspiro?), alguma frase que eu não consegui ouvir direito e o rompante de um corpo que cresceu, às minhas vistas, levando em seu rastro a palavra “café”.
Eu? Não acredito na simpatia pela simpatia. “Eu sou simpático porque quero ser simpático”. Nan, nan, nan. Atrás de cada ato praticado, fazem fila, de pés descalços que não receiam o frio desconhecido de chãos escuros (Lodo? Lama? Gel? O que mais escorrega e faz cair?) , os desejos mais ocultos de cada qual. “Que grande bosta” – o s de bosta é sibilado, e quem o pronuncia provavelmente usa óculos de aros grossos e assiste a tudo com metade do rosto encaixado no “L” armado pelo indicador e polegar da mão esquerda. Se meu discurso fosse um filme, ou um quadro, ou, quem sabe até, o tão sonhado romance jogado aos leões na arena de uma noite de autógrafos...
“Uma grande bossssta” – porque todo (pseudo) intelectual que se preze adora falar bosta e citar Nietzche na frase seguinte. A bosta de meu Deus não morreu, e maldita foi a idéia de folhear uma revista de cultura (“Os melhores críticos de cinema do país refletem sobre os caminhos do cinema iraniano”) pra ocupar a cabeça enquanto Ialda panelava e monologotagarelava da cozinha americana, os cotovelos por vezes apoiados na bancada de madeira salpicada de rodelas: fundos de copos e panelas de rotinas avulsas...Eu gastava o tempo extra com a tal revista em papel couché.
...Continuo não acreditando na simpatia pela simpatia simplesmente. A teoria só não se encaixa, de primeira, em pessoas como Ialda – aquelas que obnubilam seu aguçado sistema de percepção e avaliação das coisas com um mero sorriso besta. Trava tudo, não funciona. Ela se foi chacoalhando a palavra “café”, a palavrinha de quatro letras rastejando na ponta da cauda, cascavel que era... “Vou preparar pra gente alguma coisa...Alessandro, você gosta de café”? Sim, Ialda, eu gosto de café. Café. O que ela estava escondendo nos potinhos das bandejas e quitutes pra visitas? Talvez o mesmo medo de ser estúpida com as palavras; talvez ela esteja mais interessada em mim do que eu nela, mas, como é mulher – e mulher é um bicho falso da porra –, inventa um café pra fazer e sai pela tangente.
Eu sou ridículo.
A sala ficou mais leve quando ela saiu. É como se ela, uma dessas esferas de metal peso-de-papéis, saísse rolando mesa abaixo, deixando pra trás a festa dançante de papéis recém-libertos... Deus tratou de derrubar a lata de pó de café no chão, Pow!, “Puta que pariu, sujou tudo aqui! Merda”; e me deu mais alguns segundos pra inspecionar o local em busca de pretextos. Só naquela revista, eu tinha arranjado uns mil. Mil assuntos e os milhões de bossssta que vêm de brinde com eles.
-Aqui, Alessandro, teu café. – Ialda.
-Obrigado – eu. Obviamente. Imprescindível mencionar o dono da voz, porque eu, daqui da Cabine da Timidez Absoluta, posso chegar a falar bem menos do que um...Cachorro. E Classudo não é só um cachorro, eu tenho certeza que não, olha só os olhos, e como me observa, e o movimento humano das patas, eu chego a sentir dois braços se contorcendo ali dentro, os dedos nervosos querendo romper a selva de pelos marrons e...
- Alessandro?
- Ialda, me desculpa, estou meio ausente mesmo...Estou passando por um período um pouco difícil, sabe, cheio de problemas – Foi o máximo que consegui pensar pra não parecer estúpido, que é exatamente como eu fico em minhas constantes viagens ao Pequeno Estranho Mundo de Alessandro - Você sabe...Problemas na escola...
- Algo a ver com Glória?
- (agora ela tinha realmente me tirado do assento próximo à janela do foguete, decretado o fim da partida e me feito pisar em solo firme novamente) Como assim...com Glória? Você por acaso...Você?
- Alessandro, ou você está completamente surdo, ou eu não sei...Falei dela uns trinta minutos seguidos! Ei, moço! Ialda chamando Alessandro, câmbio, Ialda chamando Alessandro! – e fez dos dedos polegar e mindinho um telefone, inclinando a cabeça para traz e me dando, de presente, a visão do paraíso de ossos e pele do pescoço alongado. Apenas um breve instantâneo, porém, porque eu não podia me dar ao luxo de embarcar na anatomia dela, não naquele momento.
- Sim...Sim...Mas é que algum detalhe me passou despercebido.
- O quê?! Como?
- Por favor, Ialda, repete o que você falou. Eu ... - ...e, direto do departamento de Tiradas Emergenciais, saquei esta: - ...eu me perdi te olhando. Foi isso.
- (silêncio)
- E agora vê só, Ialda, o café derramou aqui na sala.
- É verdade – ela parecia entorpecida: voz, olhos, bochechas, mãos, tudo caía pelas beiradas; as pupilas fixas, as pálpebras drapeadas. Ialda estava prestes a derreter. E isto me fazia bem: Ialda derretida numa poça, o caldo espumoso de um sorvete quente. – Foi o pó lá na cozinha, agora você derrama o café aqui...Que coisa.
- (sim, Ialda, Que Coisa!. Agora eu derramo o café e...Glória. O que tem Glória, Ialda?) O que tem Glória, Ialda?
- Está mal, sem grana, precisa pagar uma dívida imensa aí.
- E foi por isso que ela se matou?
- Você estava em outro planeta mesmo, hein, Alessandro? Ela não se matou, quem disse que ela se matou?
- Ela, ué. Ou não?
- Não, Alessandro. Ou melhor, sim. Ah! O caso é que Glória tem um seguro de vida, e precisava da grana. Forjou a morte pra ver se rolava. Sumiu por uns dias, deixou aquele bilhete e a operadora já entrou em contato. Foi isso.
- E onde entra você nessa história toda?
- Minha irmã.
- (Irmã? Mas como? Como, Ialda, como?) Como assim sua irmã?
Taxidermia XIX "Don't tell me hard luck stories/ And I won't tell you mine"
Filma tudo, Fúlvio Alessandro, filma tudo. Do roteiro você cuida depois – porque ainda restam cinco minutos (talvez dez), você tem cinco minutos inteiros, redondos, estufados, sacos entupidos, vomitando grãos de milésimos pela boca esgarçada. Cinco minutos (talvez...sete?), até o sofá marrom (velho), cinco minutos que...
-Vem...Pode entrar. Só não repara a bagunça...
...Que já não são mais cinco. Quatro-e-um-pouquinho pra você catar alguma coisa – um livro, um disco, uma caneta Bic, um prendedor de cabelos com os fios cacheados do último rabo de cavalo, um copo d’água manchando a estante (estante? Que estante?), um jornal com os horários do cinema marcados à caneta (Bic, claro), sapatos virados ao contrário, uma lista telefônica aberta na seção “Restaurantes”, fotografias, quadros, esculturas, sujeiras, paredes descascando, fantasmas, vampiros, espectros, qualquer diabo de coisa minimamente capaz de virar tema de uma conversa.
Silêncio.
Às vezes a minha vontade de gritar é tão grande que chego a sentir as vibrações de som pulsando em cada pedaço do corpo, como corrente d’água que corre pelos dutos da tubulação escondida. A vermelhidão de minha timidez, meus caros, não raro vem da pressão de um grito que não pode escoar (pelo menos não no instante exato em que surge). Acalmada a correnteza, vou gotejando pingos moles de frustração pro nada e, bestamente, tamborilo, sozinho e miúdo, no alumínio de alguma pia esquecida. Eu, torneira, às vezes me culpo por não ser um...gêiser? É, mais ou menos por aí...
Nada no ambiente era assunto, simplesmente porque o ambiente era o próprio nada, o nada típico dos apartamentos recém-alugados (por mulheres misteriosas, de nariz adunco e olheiras fundas, que se comunicam através de cartas esquizofrênicas deixadas no vão das portas de estranhos, donas de cachorros com nomes fenomenais. Porque não há, no planeta, um nome mais...mais...Ah, ela é fantástica, ela, o nariz dela, e o nome do cachorro).
Mas nada no ambiente era assunto, e enquanto eu tomava consciência disto, lá se iam meus cincos minutos escoando pelo ralo, junto com o redemoinho de minhas frustrações pequeno-burguesas. A sala era de um vazio desesperador e, de tão oca, podia-se ouvir o eco irreal de nossas próprias respirações – a minha, acelerada pelos compassos trôpegos deste coração cá, envergonhado; a de Classudo, o fole frouxo da condescendência canina; e a de Ialda, a dela, a respiração pequena de uma vampira morta-viva num caixão ornado de flores secas. Branca, bela, quase cinematográfica.
No meio do deserto, um sofá marrom. Velho. E Classudo respirando lerdo, uma descomunal montanha, viva, de pelos marrons.
Calor. Sentia que minhas orelhas, a qualquer momento, podiam entrar em combustão espontânea e incendiar a minha cabeça. O homem-chama rodopiaria pela sala que, sem cortinas, sem estantes, sem catálogos telefônicos abertos na seção “Restaurante”, nem se daria conta das lambidas quentes da cabeça incendiária e desgovernada. A sala, fria, imune às labaredas do fogo inclemente. O homem-chama, este lutaria por um último beijo da amada; esta, por sua vez, choraria lágrimas de...
- ...de comprar alguns, mas acontece que, você sabe...
... choraria lágrimas. Ponto. Impedida de juntar-se ao abraço (mortal) com a sua alma-gêmea incandescente, a jovem moça e seu bravo cão, Classudo, chorariam na varanda da sala. Protegidos pelo vidro. O vidro que ameaçava estilhaçar de calor. O vidro em contagem regressiva para...
- ...vem morar comigo daqui a cinco dias. Foi muito difícil pra ela porque...
...o vidro em contagem regressiva para trincar. Tragédia. O cão suando pela língua rósea, displicentemente desenrolada para fora. O calor espalhando-se em bolhinhas gordas nos buço, testa e ombros ossudos dela. A tensão, quente. A vontade dela – de sumir, de consumir –, quente também. Ela gritaria:
-...Quatrocentos reais! Por mês! Puta que o pariu, e ela ainda me falou que...
...E ele se lembraria da infância escondida, dos potes quebrados e dos cheiros acre, das mãos frágeis da mãe e das suas juras de arrumação. E, para além da infância, tinha a promessa...
-...inclusive eu achei que você gostaria dessa marca daqui. Eu te vi elogiar o de lá da aula e pensei...
...a promessa peregrina, religiosa, beata, a que a mãe lhe passara, como um carnê de contas de prestações infinitas, ao deixar de freqüentar as igrejas, ao deixar de freqüentar o mundo, já há algum tempo. Choraria, o Homem-labareda. Pelas saudades, pelo ridículo de sua beatice encomendada em todo mês de setembro, pelas vontades paralisadas pelo calor e pelo vidro. Choraria. Tanto, mas tanto, que o fogo murcharia como um imenso novelo de algodão-doce (...sua infância de açúcar e anilina colorida...) em contato com a superfície de um rio de águas famintas. Shurp!
-...é de falar pouco, né? Abelardo me disse que você escreve contos, é verdade? Bem, eu gostaria de...
...O fim da história do Homem-Labareda: Beijos, e as mãos (as delas) dando conta de limpar a fuligem negra do rosto dele, recém-regresso da batalha. Classudo, mudo, blasé. O barulho de uma chuva forte varreria pra bem longe qualquer vestígio do antes. Fim.
-...depois veio Glória, com toda essa história, sabe, me preocupando. Entende?
Ialda falava sem parar. Capaz de não ter percebido que meus olhos estavam bem distantes do que os de uma pessoa realmente atenta à conversa estariam. Nervoso (dela). Há os que falam demais. Há os que, como eu, se perdem no rumo desgovernado de ficções aleatórias, das mais absurdas. São dois mundos pra administrar – e não raro eu costumo preferir o segundo. O do Homem-Labareda que chove tristezas.